De volta à casa de vila

20 05 2008

 

Em sua 22ª edição, a Casa Cor, montada na área de 6.500 m2 do Jockey Club, redescobre a dimensão humana e foge do que é impessoal

 

Jatobá centenário torna inesquecível a Prça Casa Cor, de Gilberto Elkis

 

A maturidade chegou à Casa Cor. Em sua 22ª edição, a mais representativa mostra de design de interiores do País entra na idade adulta cheia de planos, mas também consciente dos desafios. No entender dos organizadores, o momento é de crescer, mas sem perder de vista o DNA do evento. Mais especificamente, a aura de glamour e exclusividade das primeiras edições – diferenciais que pretendem reviver, em grande estilo, a partir de terça-feira, no Jockey Club de São Paulo, em Cidade Jardim.
“O conceito de bom gosto que queremos imprimir à marca Casa Cor é uma característica original da mostra, conquistada com competência por suas fundadoras Yolanda Figueiredo e Angélica Rueda”, afirma João Doria Jr., que acaba de assumir a presidência do empreendimento em sociedade com o Grupo Abril. Com investimentos da ordem de R$ 8 milhões, a primeira Casa Cor sob sua direção foi montada em uma área total de 6.500 m² e deve atrair um público de cerca de 200 mil pessoas.

Entre os projetos em pauta, além da ampliação do calendário de exposições, o licenciamento da marca para produtos de homeware, bem-estar e lazer: o primeiro deles, uma linha de aromatizadores, já estará à venda no local. “Além de lançar tendências, a mostra é um extraordinário impulsionador de vendas, com um público superior a 500 mil visitantes anuais”, afirma Doria.

Qual seria a estratégia para conciliar as metas de crescimento e a exclusividade de outrora? “Sofisticação em cada detalhe, do visível ao apenas perceptível”, explica Felipe Camargo, vice-presidente da Casa Cor. Ao que ele acrescenta: “Sofisticação hoje pressupõe simplicidade, atenção aos sentidos. Sem esquecer, claro, da importância da preservação ambiental”.

 

Uma vila no Jockey

Que não se surpreenda, portanto, quem, durante a visita, perceber cacaueiros estrategicamente posicionadas em meio aos 69 ambientes, projetados por 88 profissionais na mostra organizada este ano sob o tema “Vila de Casas”.

“Há tempos vínhamos detectando um desejo de voltar à vila. De redescobrir dimensões humanas, mais na escala dos moradores e longe da impessoalidade dos condomínios. O que não esperávamos era estar tão próximos de uma”, admite Camargo, referindo-se à pequena vila residencial no Jockey, exemplar típico de um padrão de ocupação urbana que alcançou seu apogeu na primeira metade do século 20 e que inspirou a montagem deste ano.

Tombados pelo Patrimônio Histórico e Cultural, cinco desses imóveis conservam a fachada original, mas tiveram seus interiores inteiramente reformulados. “Para adaptar a casa ao viver contemporâneo, optei por abolir divisórias, integrando quartos, sala e cozinha em ambiente único”, diz Brunete Fraccaroli, criadora da Casa Dourada, projeto que investe também no branco e no prata, algumas de suas apostas para a próxima estação.

 

A vez do paisagismo

No melhor estilo Casa Cor, novas construções, na forma de lofts e estúdios foram integrados ao conjunto existente, mas sempre de maneira planejada para não descaracterizar o padrão de implantação. Nesse sentido, o paisagismo é o ponto alto desta edição: à semelhança das antigas vilas, as praças, vistas não só como áreas de passagem, propiciam o convívio. Caso de “um lounge a céu aberto”, como preferem chamar Daniela Sedo e Carlos Marsi à Praça de Boas-Vindas – projeto da dupla que conta com dois ambientes, um para descanso e outro para encontros. Ou ainda sob a condição de espaço referencial na memória dos moradores, como propõe o paisagista Alex Hanazaki, no Pátio das Casas, que homenageia os 100 anos da imigração japonesa por meio de um jardim de 300 m², repleto de simbologias.

Não por acaso, a Casa Cor está mais agradável de ser percorrida: em meio à sucessão de espaços verdes, cascatas e espelhos d?água (um dos hits da estação), o visitante vai passar bons momentos ao ar livre, à sombra de jatobás, pitangueiras e flamboyants – algumas das espécies que compõem a vegetação local, vestígio de Mata Atlântica que não passou despercebida pelos arquitetos.

 

Natureza integrada

É o caso de Fernanda Marques, que integrou uma das árvores ao desenho de seu Estúdio 24/7; de Roberto Migotto, com a suíte emoldurada por exuberante paisagem; ou ainda de Francisco Cálio, querevestiu a fachada da Casa Viva com vasos de plantas, irrigados por um sistema de acionamento automático e ecologicamente correto. Sem falar dos inúmeros projetos que, por meio de grandes painéis de vidro, procuram trazer a natureza para dentro dos interiores. De forma literal, contam com paredes ajardinadas na sua composição ou ao menos um painel fotográfico, com referência ao tema.

Em sintonia com o espírito nostálgico da Casa Cor 2008, duas mostras fotográficas devem chamar a atenção: uma, enfocando a obra de Oscar Niemeyer, a cargo de Ruy Othake, com os momentos marcantes da carreira do arquiteto centenário; outra, em homenagem às idealizadoras da mostra, Yolanda Figueiredo e Angélica Rueda, que teve sua primeira edição em junho de 1987.

Trilha sonora ideal para embalar um evento desenhado para agradar aos olhos – mas também aos ouvidos -, perto da entrada, no Lounge Bossa Nova, de Débora Aguiar, o ritmo brasileiro por excelência – que está, a propósito, comemorando 50 anos de estrada -, vai servir de fundo musical para tardes à beira do piano, em ambiente inspirado na arquitetura moderna.

Respirem, portanto, aliviados: ao que tudo indica, a vida continua doce vista dos reluzentes espaços do Jockey Club paulistano.